John!

Recebi um convite de um amigo para acompanhá-lo a uma festa de final de ano de seus vizinhos. Ele me alertou que lá, seríamos os mais jovens, que a idade média da “moçada” iria ficar em torno dos 70, se não, mais.

Fui feliz, afinal, quem  me conhece (não esquece jamais, ó Minas Gerais – primeira piadinha infâme do ano) sabe que eu adoro esses encontros para falar de amenidades, etc.

Bom, na festa, realmente a média de idade era para além dos 70. O dono da casa tinha seus 70, sua mulher era considerávelmente mais nova, e percebia-se que estava completamente entediada. Dos outros convidados, acho que havia um com 85, outra com 80, e alguns que não cheguei a descobrir a idade, mas via-se que já haviam vivido uma longa vida.

Havia a Mrs. McIntyre. 80 anos. Foi enfermeira. Foi para a 2ª Guerra, onde conheceu seu marido. Infelizmente, acho que ela estava doente, mas era muito interessada sobre mim e meu país. Perguntou-me o nome de minha cidade, chamou o marido e pediu para que eu escrevesse em um pedaço de papel. Queria saber, no mapa, onde ficava meu pequeno paraíso. Achei o máximo ela ter todo esse interesse sobre mim, minha cidade, meu país. Imaginei-a chegando em casa, sentando em frente ao computador, digitando lentamente B-E-L-O-H-O-R-I-Z-O-N-T-E no Google. Mas aí ela olha para mim e diz: “I want to check in my Atlas where it is (quero olhar no meu Atlas aonde fica). Linda! Quase mordi! Obviamente consigo controlar meus impulsos de morder pessoas.

Outra figura que eu conheci foi o John. Não fui apresentada pelo sobrenome, acho que pelo fato de sua mulher não estar lá (os mais antigos, quando acompanhado de suas respectivas esposas, se apresentam como Mr. and Mrs. XXX, quando sozinhos, dizem apenas o nome). John tem 89 anos, seus 90 anos será em algumas semanas. Segundo ele, já avisou a família que está gastando bastante dinheiro em sua festa, já que sabe que não tem a vida toda pela frente. Durante a conversa, as pessoas ao meu redor sempre faziam alguma referência a windsurf e rugbi. Não entendia o porquê. Continuava na roda de conversa, e esboçava aquele sorriso “não entendi, mas continuemos”. Acho que meus parceiros de roda perceberam que eu não tinha percebido, e foi quando soltaram a bomba. John, em seus quase 90 anos, PRATICA WINDSURF e há dois meses, somente pelo fato de sua mulher ter dito ao médico que ele AINDA PRATICAVA RUGBI, teve que abandonar o esporte. Oficialmente. John me confidenciou que às vezes, ao invés de ir confessar com o padre, ele vai jogar um rugbizinho.

E eu achando que era a mais nova da festa.

John, que serviu na guerra em um porta-aviões, enfrentou racionamento de comida, viu o Príncipe Charles nascer, crescer, ter filhos, aos 90 anos, dá um banho de energia, alegria e vontade de viver. Quer uma festa cara, com tudo que tem direito, porque TEM que celebrar a vida que viveu, e que ainda vive intensamente. John não é um personagem criado para dar boas vindas a 2011. John existe, e é um exemplo a ser seguido.

Não deixemos que a idade, que a cada ano, inevitávelmente aumenta, se torne um peso em nossas costas, nos impedindo de fazer o que gostamos. Deixemos o John que existe em cada um de nós fale mais alto. Que pratiquemos esportes “radicais” aos 60, 70, 80 e, se tivermos sorte, aos 90 também.

Que o John que eu conheci se torne, na vida de todos, um exemplo. Um estilo de vida. John Way of Life. Bem vindo 2011.

 

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6 pensamentos sobre “John!

  1. Nossa, desejo que existam muitos Johns nessa vida! Esse realmente tem história pra contar! Meu avô é João. Quase um John. Não pratica rugbi escondido, muito menos windsurf, mas tem 88 anos, uma família gigante, e certamente muita história pra contar e ainda ser contada! Beijos

  2. Caraaaca! Sou apaixonado por histórias de vida de gente normal e vc deu um show com essa. Muito bom. Confesso que fiquei até com inveja, porque queria eu ter tido a honra de bater esse papo na festa com o John…
    Ótimo ano pra vc e muita sorte com as possíveis mudanças!
    bjo

  3. Me emocionei com a história do John!!! Um dos melhores posts seus, amiga! E me lembrei adivinha de quem? Do meu vovozinho lindo, que viveu a vida maravilhosamente até falecer…e ele também tinha muitas histórias para contar!!!Não é não, amiga?

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