Menos de 1 km daqui…

O ambiente não é o mais agradável. Os muros cobertos de tintas, grafites e pixações te recepcionam de forma um tanto quanto agressiva. Muitas crianças de uniformes sobem de mãos dadas com suas mães. A cada minutos diversas motocicletas sobem em direção ao topo. Penso positivo, esculpo o sorriso mais confiante que eu possa conseguir, e sigo em frente. Minha primeira experiência naquele lugar tinha sido um pouco assustadora.

Levava minha goxtosinha (minha afilhada Gabriela) e sua mãe em casa quando um homem, todo vestido de branco (calças adidas brancas, blusa branca, casaco branco e uma boina branca) para no meio da rua e impede que eu possa prosseguir o caminho. Vem até minha janela e informa que eu não iria prosseguir. Iria manobrar o carro em um lugar apontado por ele e voltar para de onde eu vim. Meu apelo em levar minha afilhada o mais próximo de casa, mas foi em vão, tanto por parte daquele homem, que mais tarde descobrir ser um dos traficantes do morro, quanto pela Rosa, mãe da Gabriela, que pediu que não insistisse, que aquele ponto já estava legal.

Quando subia por aquelas vielas nesta tarde não me senti intimidada. Com os vidros abertos saudava as pessoas com um Opa! Ou Hey. Subi o morro e uma coisa foi impressionante. Os becos tão pequenos, e com tanto fluxo de carros criou uma forma de código de conduta de trânsito. Se você sobe o morro, os carros (e microonibus) que descem devem ceder espaço a você. Ai você pensa: num beco de favela, vem um microonibus, não tem nem jeito. Nem querendo dá para dar espaço para o outro carro. Foi o que eu pensei quando eu me deparei com o miquinho (charmoso apelido para o microonibus amarelinho que corta a favela). Mas diferentemente do que eu esperava, e para minha vergonha, o motorista, sem pestanejar, deu ré, se enfiou em um outro beco e abriu espaço para mim. Hã?!?!?!?!

A harmonia que eu vi naquele lugar foi impressionante. Mesmo em meio àquela bagunça de becos e vielas, morros e crateras, árvores e jardins, a organização é mais do que visível. Fiquei imaginando se aquela mesma situação em algum bairro de classe alta o mesmo acontecia. Imaginei a cena e concluí que o que os dois carros que disputassem o espaço se enfrentariam, desligariam o motor e tentariam vencer o outro pelo cansaço.

Favela, comunidade, morro, chame o que quiser. Hoje, eles me deram um banho de cidadania, um banho de descência e um banho de vergonha na cara!

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4 pensamentos sobre “Menos de 1 km daqui…

  1. Entendeu porque a gente chama de “comunidade”?
    Quem mora no asfalto não sabe o valor de de viver em comunidade, como as pessoas do morro.

    Maravilhoso seu texto Xuxu.
    Beijo,
    Dagowberto.

  2. Bem legal ler isso. É engraçado como a maioria das pessoas que julga ou que escreve coisas ruins sobre favelas, nunca realmente se deu a oportunidade de conhecer o que acontece por lá.

    beijao

  3. Boa, mineirin! As pessoas e os lugares mais simples têm ótimas lições pra ensinar a quem se acha complexo demais. Engraçado é que o texto e a moral são bonitos, mas dá uma tristeza imaginar as dificuldades do povo……

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