Meu coração é alvinegro

Há alguns anos, estava no metro de Londres, vestindo a camisa do Galo, num dia de futebol pelo campeonato inglês. Amo futebol, mas jamais saberia o calendário dos jogos do campeonato, até porque só torço para um time, e ele não joga na Inglaterra.

O jogo em questão era West Ham x New Castle.

Nem me importei quando dezenas de homens hooligans lindos, bradando cânticos futebolísticos, com aqueles vozeirões entraram no trem… Senti um homem tocar meu ombro, e ouvi o gratíssimo torcedor do West Ham ordenar que tirasse minha blusa.

“Você ta maluco?”, o questionei. Ele insistiu na remoção da camisa, falando que naquele vagão não aceitaria torcedor do New Castle. Insisti que não era torcedora daquele time, e sim do Galo. Apontei pro símbolo bordado na camisa, e para as bandeiras de Minas e do Brasil na lateral. O lindo brutamontes engoliu a seco o próximo pedido de ordem de remoção da camisa, olhou para a camisa e passo a perguntar sobre o futebol no Brasil.

História à parte, amanhã o Galo completa 105 anos. 105 anos de um time que aglomera apaixonados, fanáticos, que torcem contra o vento, e enfrentam sol e chuva pra ver o time jogar.

Pra fechar meu pequeno relato, pra comemorar o aniversário do Galo, com um dos textos mais famosos que essa nação alvinegra conhece.

Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade,o atleticano torce contra o vento. Ah, o que é ser atleticano? É uma doença? Doidivana paixão? Uma religião pagã? Bênção dos céus? É a sorte grande? O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas. Daí, que a bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo.

Cheira ao suor da mulher amada.
Cheira a lágrimas.
Cheira a grito de gol
Cheira a dor.
Cheira a festa e a alegria.
Cheira até mesmo perfume francês.
Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú, trêmula ao vento.

A gente muda de tudo na vida. Muda de cidade. Muda de roupa. Muda de partido político. Muda de religião. Muda de costumes. Até de amor a gente muda. A gente só não muda de time, quando ele é uma tatuagem com a iniciais C.A.M., gravada no coração.É um amor cego e têm a cegueira da paixão.

Já vi o atleticano agir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados. Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar: Nunca mais torço pelo Galo. Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazer com o retrato da amada.

Que mistério tem o Atlético que, às vezes, parece que ele é gente? Que a gente associa às pessoas da família (pai, mãe, irmão, tio, prima)? Que a gente o confunde com a alegria que vem da mulher amada?
Que mistério tem o Atlético que a gente confunde com uma religião?
Que a gente sente vontade de rezar “Ave Atlético, cheio de graça?”
Que a gente o invoca como só invoca um santo de fé? Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera?Que tudo se transfigura num mar branco e preto?

Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. Acima de tudo, sou atleticano e, nesse amor, pertenço ao maior partido político que existe:
O Partido do Clube Atlético Mineiro, o PCAM, onde cabem homens, mulheres, jovens, crianças. Diante do Atlético todos são iguais: o bancário pode tanto quanto o banqueiro, o operário vale tanto quanto o industrial. Toda manhã, quando acordo, eu rezo: Obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético.

Roberto Drummond

20130324-224022.jpg

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s