Respiro aliviada, enfim.

Entendo que tenho falado um bocado de futebol. Mas como ignorar? Nos meus 27 anos nunca fui correspondida da forma que, hoje, meu Galo, me corresponde. É aquele sentimento de que o grande amor de sua vida finalmente lhe dá o devido valor, e você, orgulhosa, quer sair por aí, mostrando para todos, que ele te ama, que te quer bem, ainda que tenha minhas dúvidas sobre o querer bem do meu Galo. 

Tinha tudo para ser o maior espetáculo do futebol na atualidade. A torcida acabou com o estoque de máscaras do pânico na cidade, os ingressos, esgotados há tempos, eram revendidos a preços de rim. Os bares da cidade cheios, as casas dos amigos preparadas para o espetáculo que era anunciado. 

Eu, na minha ignorância, apostaria em um placar de 3 a 0 para o Galo. Santa ignorância. Jogo truncado, meu time não apresentou, nem de longe, o futebol gostoso de se assistir. Ê Galo!

Ê Galo! Desconfio que o presidente Alexandre Kalil tenha um pacto com a Associação Mineira de Cardiologia. Só pode. Não há explicação para as coisas que o atleticano passa. Pênalti aos 48 do segundo tempo. Se houvesse a conversão daquele pênalti, não iríamos à semi final. Ê Galo! O estádio Independência, sempre tão barulhento, um caldeirão, ficara calado. Lágrimas escorriam no rosto de milhares. Ê Galo! 

Ê Galo! Riascos poderia ter acabado com a alegria (e invencibilidade dentro de casa) de milhares. Poderia se ouvir uma moscar naquele estádio. Fechei meus olhos e escuto o nome Victor ser gritado pelo narrador. Ele pegou.

Ê Galo! Nem nos meus sonhos mais perfeitos poderia ter sonhado com aquele final. Não. Nem em sonho. Coração calejado é assim. 

Roberto Drummond, em sua vasta sabedoria, em um dos seus textos mais conhecidos pelos atleticanos, disse “se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade,o atleticano torce contra o vento”. Mas não agora. Agora o vento sopra a favor, impulsiona, nos dá gás.

Agora, respiro aliviada. Meu coração, alvinegro e calejada, como todo coração deve ser, já voltou a bater. 

 

In hortus incidit, mortus est

Domingo, dia das mães, acordo e ando pela casa. Dormi tarde na noite anterior, o que não fez com que acordasse cedo. Procurei, em vão, pela minha mãe. Nada. Lembrei-me que ela viajara no dia anterior. Dia das mães, sem mãe. Não haveria muito que fazer, restaurantes abarrotados de mães e sua prole, supermercados com filas intermináveis com pessoas comprando alguma “coisinha pra levar pro almoço de família”. Pouquíssimas opções restariam para aquele dia fadado ao tédio.

Dei uma corridinha (4 km só pra queimar a única caneca de cerveja consumida na noite anterior), e levei o carro para lavar. Não sei qual é o caso de carro sujo e mulher. Por mais que eu entenda, saiba e veja a necessidade de lavar o carro, passo semanas (ou meses) sem que o pobre coitado não veja um sabãozinho. Tive que esperar bons minutos na fila do posto de gasolina. Via algumas motoristas desistirem da lavagem mesmo depois de 20 minutos na fila. Permaneci forte. Afinal, teria que matar o tempo daquele domingo.

Carro limpo e aspirado (trabalho exclusivo meu), estava pronta para pensar no almoço. A caminho do supermercado, de supetão, me vi pegar o celular e ligar para um amigo:

– Jonas, tem Galo na Veia (sócio torcedor do galo) ainda?

– Tem sim.

– Segura ai, que é meu!

Pronto. A decisão que mudaria a cara do meu domingo.

 Quem nunca esteve em um estádio de futebol, jamais saberá mensurar os sentimentos que descreverei abaixo.

O Independência, a casa do Galo, foi projetado de uma forma que te coloca quase dentro de campo. O barulho que vem das arquibancadas é ensurdecedor, apesar da existência de assentos numerados, ninguém os utiliza, a não ser como forma de localização “oh fulano, estou no W98”.

Antes do início da partida, os jogadores entraram com uma convidada especial. Como era dia das mães, várias mães presentes percorreram o caminho do vestiário ao centro do campo. Em especial a Dona Miguelina, mãe de Ronaldinho Gaucho. Lágrimas desciam dos olhos de vários torcedores, principalmente das torcedores… “ahhhh, é Miguelina”!

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Ao meu lado, de pé, como todos, um senhor dos cabelos brancos e olhos azuis bradava gritos mais contidos, sem muitos palavrões. Comentava comigo que ele, se jogador fosse, não perderia os gols que foram desperdiçados. Começamos a contabilizar, da nossa maneira, o placar moral do jogo.

Pênaltis não marcados pelo juiz: 2

Lances de perigo e gol eminentes: 3

Gols feitos: 3

Placar moral: 8

Durante todo o jogo, o ditado, entoado em forma de hino, se fazia valer: “Caiuuuuu.. no horto, tá morto! Caiu… no horto, tá morto”. Jogadores tinham seus nomes gritados, até o técnico Cuca.

Ao marcar de um gol, o estádio explodia de gritos, pulos, abraços, apertos de mão. Como uma família, todos ao seu redor se cumprimentam e comemoram. O senhor, de cabelos brancos, só faltou me jogar para cima. No pular dos torcedores, uma onda se formou, não dá para ficar parado. Lembra das aulas de física no colégio, que o professor pega uma corda, a amarra em uma extremidade e na outra faz movimentos? Os braços ao redor de meu pescoço e cintura determinam o movimento do corpo: para cima e para baixo. Um pouco para frente, esbarra no encosto da cadeira da frente, volta, esbarra na cadeira, que seria a sua, e volta para frente. Tudo isso mantendo o movimento: pulando… para cima, para baixo.

A onda, quase uniforme, me causou estragos…

Às vezes, me perdia no jogo, ao reparar a torcida. Cantavam e pulavam. Faziam movimentos que, à distância, me lembravam de uma onda do mar. Os movimentos pareciam ensaiados. Não havia erros naquela coreografia.

3 gols.

O som do apito, antes tão esperado a fim de cessar com o sofrimento, com a angústia de um placar pífio e de um jogo perigoso para nós, agora só nos faz entristecer. Não ao ponto de gerar tristeza. Apenas diminui nossa alegria de ver aquele jogo. Jogo não! Espetáculo. O som do apito do árbitro, ao final de uma partida, me traz a mesma sensação de ouvir o cantor da minha banda favorita informar que será tocada a última música. Por mim, o jogo só terminaria quando não houvesse mais energia para se jogar. Ou pular e gritar.

Voltei para casa de alma lavada. Ficar em casa naquele domingo faria com meu coração pulasse para fora do peito até o jogo acabar.

Bora galo! Domingo que vem, se conseguir ingresso, estaremos lá.