Isso é Galo. Sofrimento!

Para alegria de uns, e tristeza de muitos outros, o jogo de ontem não foi como eu esperava.

Para variar o Galo teve um rendimento em campo bem inferior ao apresentado em partidas do início da competição e em casa. Alecsando não precisava ter ficado na frente do Victor. Aquele segundo gol, com um gosto amarguíssimo, poderia ter sido evitado.

Alecsando alegou que não fez nada mais do que o Cuca não teria pedido.

Ok, sei que você quer se tornar titular absoluto, Alecsandro, mas se o Cuca te mandar pular de um prédio você pula? Não percebeu que estava na frente do Victor, que por razões óbvias e também regulamentares, teria muito mais chances de pegar aquela bola do que você? Lembra que ele, o goleiro, arqueiro, keeper, gollie, pode usar as mãos para segurar a bola? E por uma obra do acaso, também tem nos pés, um membro inferior divino que já nos salvou em outra oportunidade?

Ah Alecsandro. Não te culpo pela derrota, mas sim por aquele gol.

Semana que vem tem volta. Acredito que jogaremos melhor pois a massa estará nas arquibancadas para empurrar o time.

Parte 1 – O primeiro jogo

Acordei com uma mensagem no grupo do whatsapp “Bom dia pra você que vai ficar com nó na garganta, arritmia cardíaca e estomago fragilizado o dia todo”. Apesar da minha resposta foi crucificando o sem mãe que às 5:50 da manhã mandava aquela mensagem e me fez acordar 20 minutos antes do meu relógio despertar, sabia que meu amigo não poderia estar mais certo.

Quem que consegue sentar à frente do computador, no dia de hoje, sem verificar, a cada 10 minutos, as notícias do Galo em todos os portais de notícias do país.

Apesar da torcida contra de vários cruzeirenses, a maioria das pessoas que conversam acreditam na vitória do galo. Alguns não explicitam dessa maneira, mas reclamam, antecipadamente, do foguetório até altas horas da noite.

Ontem saiu a definição sobre o estádio da finalíssima. A Conmenbol anunciou que a final não poderia ser no Independência pois, pelo regulamento, o estádio deveria ter no mínimo 40.000 lugares. Questionados a respeito da capacidade do Defensores del Chaco, a entidade informou que a capacidade do estádio dos rivais do Galo preenchiam o requisito do regulamento, conforme laudo apresentado a eles. Segundo o laudo, a capacidade do Estádio paraguaio seria de pouco mais de 40 mil lugares, o número inferior de bilhetes à venda para as partidas seria por questão de segurança e conforto. Argumento questionável, mas não acredito que exista instância superior para se recorrer da decisão. A final será mesmo no Mineirão.

Temo pelo valor dos ingressos. Há boatos que o mais barato será R$150,00. Acho caríssimo. Podem falar que é final de Libertadores, que é assim mesmo. Ok. Não discordo que os clubes tem uma ótima chance de arrecadar com esses eventos (dizem que o Galo pode ter uma renda de cerca de R$8.000.000,00 – oito milhões de reais), mas que o ingresso é caro, isso é.

Hoje será uma das noites mais longas da minha vida. O relógio parece andar para trás, e as horas não avançam. Unhas pra que? A maioria delas já estão roídas, as poucas que restam intactas sabem o seu futuro fatídico.

Vamos Galo!

EU ACREDITO!

Respiro aliviada, enfim.

Entendo que tenho falado um bocado de futebol. Mas como ignorar? Nos meus 27 anos nunca fui correspondida da forma que, hoje, meu Galo, me corresponde. É aquele sentimento de que o grande amor de sua vida finalmente lhe dá o devido valor, e você, orgulhosa, quer sair por aí, mostrando para todos, que ele te ama, que te quer bem, ainda que tenha minhas dúvidas sobre o querer bem do meu Galo. 

Tinha tudo para ser o maior espetáculo do futebol na atualidade. A torcida acabou com o estoque de máscaras do pânico na cidade, os ingressos, esgotados há tempos, eram revendidos a preços de rim. Os bares da cidade cheios, as casas dos amigos preparadas para o espetáculo que era anunciado. 

Eu, na minha ignorância, apostaria em um placar de 3 a 0 para o Galo. Santa ignorância. Jogo truncado, meu time não apresentou, nem de longe, o futebol gostoso de se assistir. Ê Galo!

Ê Galo! Desconfio que o presidente Alexandre Kalil tenha um pacto com a Associação Mineira de Cardiologia. Só pode. Não há explicação para as coisas que o atleticano passa. Pênalti aos 48 do segundo tempo. Se houvesse a conversão daquele pênalti, não iríamos à semi final. Ê Galo! O estádio Independência, sempre tão barulhento, um caldeirão, ficara calado. Lágrimas escorriam no rosto de milhares. Ê Galo! 

Ê Galo! Riascos poderia ter acabado com a alegria (e invencibilidade dentro de casa) de milhares. Poderia se ouvir uma moscar naquele estádio. Fechei meus olhos e escuto o nome Victor ser gritado pelo narrador. Ele pegou.

Ê Galo! Nem nos meus sonhos mais perfeitos poderia ter sonhado com aquele final. Não. Nem em sonho. Coração calejado é assim. 

Roberto Drummond, em sua vasta sabedoria, em um dos seus textos mais conhecidos pelos atleticanos, disse “se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade,o atleticano torce contra o vento”. Mas não agora. Agora o vento sopra a favor, impulsiona, nos dá gás.

Agora, respiro aliviada. Meu coração, alvinegro e calejada, como todo coração deve ser, já voltou a bater. 

 

In hortus incidit, mortus est

Domingo, dia das mães, acordo e ando pela casa. Dormi tarde na noite anterior, o que não fez com que acordasse cedo. Procurei, em vão, pela minha mãe. Nada. Lembrei-me que ela viajara no dia anterior. Dia das mães, sem mãe. Não haveria muito que fazer, restaurantes abarrotados de mães e sua prole, supermercados com filas intermináveis com pessoas comprando alguma “coisinha pra levar pro almoço de família”. Pouquíssimas opções restariam para aquele dia fadado ao tédio.

Dei uma corridinha (4 km só pra queimar a única caneca de cerveja consumida na noite anterior), e levei o carro para lavar. Não sei qual é o caso de carro sujo e mulher. Por mais que eu entenda, saiba e veja a necessidade de lavar o carro, passo semanas (ou meses) sem que o pobre coitado não veja um sabãozinho. Tive que esperar bons minutos na fila do posto de gasolina. Via algumas motoristas desistirem da lavagem mesmo depois de 20 minutos na fila. Permaneci forte. Afinal, teria que matar o tempo daquele domingo.

Carro limpo e aspirado (trabalho exclusivo meu), estava pronta para pensar no almoço. A caminho do supermercado, de supetão, me vi pegar o celular e ligar para um amigo:

– Jonas, tem Galo na Veia (sócio torcedor do galo) ainda?

– Tem sim.

– Segura ai, que é meu!

Pronto. A decisão que mudaria a cara do meu domingo.

 Quem nunca esteve em um estádio de futebol, jamais saberá mensurar os sentimentos que descreverei abaixo.

O Independência, a casa do Galo, foi projetado de uma forma que te coloca quase dentro de campo. O barulho que vem das arquibancadas é ensurdecedor, apesar da existência de assentos numerados, ninguém os utiliza, a não ser como forma de localização “oh fulano, estou no W98”.

Antes do início da partida, os jogadores entraram com uma convidada especial. Como era dia das mães, várias mães presentes percorreram o caminho do vestiário ao centro do campo. Em especial a Dona Miguelina, mãe de Ronaldinho Gaucho. Lágrimas desciam dos olhos de vários torcedores, principalmente das torcedores… “ahhhh, é Miguelina”!

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Ao meu lado, de pé, como todos, um senhor dos cabelos brancos e olhos azuis bradava gritos mais contidos, sem muitos palavrões. Comentava comigo que ele, se jogador fosse, não perderia os gols que foram desperdiçados. Começamos a contabilizar, da nossa maneira, o placar moral do jogo.

Pênaltis não marcados pelo juiz: 2

Lances de perigo e gol eminentes: 3

Gols feitos: 3

Placar moral: 8

Durante todo o jogo, o ditado, entoado em forma de hino, se fazia valer: “Caiuuuuu.. no horto, tá morto! Caiu… no horto, tá morto”. Jogadores tinham seus nomes gritados, até o técnico Cuca.

Ao marcar de um gol, o estádio explodia de gritos, pulos, abraços, apertos de mão. Como uma família, todos ao seu redor se cumprimentam e comemoram. O senhor, de cabelos brancos, só faltou me jogar para cima. No pular dos torcedores, uma onda se formou, não dá para ficar parado. Lembra das aulas de física no colégio, que o professor pega uma corda, a amarra em uma extremidade e na outra faz movimentos? Os braços ao redor de meu pescoço e cintura determinam o movimento do corpo: para cima e para baixo. Um pouco para frente, esbarra no encosto da cadeira da frente, volta, esbarra na cadeira, que seria a sua, e volta para frente. Tudo isso mantendo o movimento: pulando… para cima, para baixo.

A onda, quase uniforme, me causou estragos…

Às vezes, me perdia no jogo, ao reparar a torcida. Cantavam e pulavam. Faziam movimentos que, à distância, me lembravam de uma onda do mar. Os movimentos pareciam ensaiados. Não havia erros naquela coreografia.

3 gols.

O som do apito, antes tão esperado a fim de cessar com o sofrimento, com a angústia de um placar pífio e de um jogo perigoso para nós, agora só nos faz entristecer. Não ao ponto de gerar tristeza. Apenas diminui nossa alegria de ver aquele jogo. Jogo não! Espetáculo. O som do apito do árbitro, ao final de uma partida, me traz a mesma sensação de ouvir o cantor da minha banda favorita informar que será tocada a última música. Por mim, o jogo só terminaria quando não houvesse mais energia para se jogar. Ou pular e gritar.

Voltei para casa de alma lavada. Ficar em casa naquele domingo faria com meu coração pulasse para fora do peito até o jogo acabar.

Bora galo! Domingo que vem, se conseguir ingresso, estaremos lá.

Meu coração é alvinegro

Há alguns anos, estava no metro de Londres, vestindo a camisa do Galo, num dia de futebol pelo campeonato inglês. Amo futebol, mas jamais saberia o calendário dos jogos do campeonato, até porque só torço para um time, e ele não joga na Inglaterra.

O jogo em questão era West Ham x New Castle.

Nem me importei quando dezenas de homens hooligans lindos, bradando cânticos futebolísticos, com aqueles vozeirões entraram no trem… Senti um homem tocar meu ombro, e ouvi o gratíssimo torcedor do West Ham ordenar que tirasse minha blusa.

“Você ta maluco?”, o questionei. Ele insistiu na remoção da camisa, falando que naquele vagão não aceitaria torcedor do New Castle. Insisti que não era torcedora daquele time, e sim do Galo. Apontei pro símbolo bordado na camisa, e para as bandeiras de Minas e do Brasil na lateral. O lindo brutamontes engoliu a seco o próximo pedido de ordem de remoção da camisa, olhou para a camisa e passo a perguntar sobre o futebol no Brasil.

História à parte, amanhã o Galo completa 105 anos. 105 anos de um time que aglomera apaixonados, fanáticos, que torcem contra o vento, e enfrentam sol e chuva pra ver o time jogar.

Pra fechar meu pequeno relato, pra comemorar o aniversário do Galo, com um dos textos mais famosos que essa nação alvinegra conhece.

Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade,o atleticano torce contra o vento. Ah, o que é ser atleticano? É uma doença? Doidivana paixão? Uma religião pagã? Bênção dos céus? É a sorte grande? O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas. Daí, que a bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo.

Cheira ao suor da mulher amada.
Cheira a lágrimas.
Cheira a grito de gol
Cheira a dor.
Cheira a festa e a alegria.
Cheira até mesmo perfume francês.
Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú, trêmula ao vento.

A gente muda de tudo na vida. Muda de cidade. Muda de roupa. Muda de partido político. Muda de religião. Muda de costumes. Até de amor a gente muda. A gente só não muda de time, quando ele é uma tatuagem com a iniciais C.A.M., gravada no coração.É um amor cego e têm a cegueira da paixão.

Já vi o atleticano agir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados. Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar: Nunca mais torço pelo Galo. Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazer com o retrato da amada.

Que mistério tem o Atlético que, às vezes, parece que ele é gente? Que a gente associa às pessoas da família (pai, mãe, irmão, tio, prima)? Que a gente o confunde com a alegria que vem da mulher amada?
Que mistério tem o Atlético que a gente confunde com uma religião?
Que a gente sente vontade de rezar “Ave Atlético, cheio de graça?”
Que a gente o invoca como só invoca um santo de fé? Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera?Que tudo se transfigura num mar branco e preto?

Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. Acima de tudo, sou atleticano e, nesse amor, pertenço ao maior partido político que existe:
O Partido do Clube Atlético Mineiro, o PCAM, onde cabem homens, mulheres, jovens, crianças. Diante do Atlético todos são iguais: o bancário pode tanto quanto o banqueiro, o operário vale tanto quanto o industrial. Toda manhã, quando acordo, eu rezo: Obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético.

Roberto Drummond

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